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Ocupando o Quarto de Mim

Essa semana eu tomei uma decisão pequena por fora, mas imensa por dentro: Me apropriei da minha cama. Durante muito tempo, mesmo depois dele ter ido embora, eu continuava dormindo só do meu lado. Como se houvesse uma barreira invisível me impedindo de atravessar pro lado dele — o lado vazio, o lado frio, o lado cheio de lembrança. Dormir no meu canto era como respeitar uma ausência. Um luto. Mas ontem, pela primeira vez, eu rompi isso. Comprei uma luminária nova. Coloquei flores. Livros. Cuidando daquele criado-mudo que, até então, era território dele. Pode parecer um gesto bobo. Mas pra mim, foi o maior passo que eu já dei até agora. Porque agora, aquele quarto deixou de ser “nosso”. E começou, devagarinho, a ser meu. Ainda dói. Mas um pouco menos do que ontem. E talvez, sem pressa, eu vá ocupando todos os espaços que um dia eu cedi — inclusive dentro de mim.

Migalhas Digitais Não Matam a Fome

Todos os dias ele me manda bom dia. Antes era com beijos, com cheiro de café, com abraço demorado. Agora é só uma mensagem. Mas eu espero. Como quem espera uma dose de algo que já não cura, só alivia a dor. Um coração vermelho no WhatsApp. Um “bom dia” que soa como: “ainda penso em você o suficiente pra não te deixar ir.” Eu sei que ele manda pra outras. Eu sei que o corpo dele já não é mais meu. Sei que o desejo dele já habita outros nomes. Mas mesmo assim… eu fico aqui. Viciada. Porque ele me ensinou a viver com pouco. E agora que esse pouco é tudo o que eu tenho, parece que é melhor do que nada. Mas não é. Migalhas digitais não matam a fome. E eu não sei ainda como cortar esse laço. Mas sei que preciso. Porque amor não é isso. E porque eu quero mais do que um coração enviado às 08h da manhã por alguém que não me escolheu.

O Dia em Que Eu Percebi Que Tinha Medo Dele

Hoje ele me cuidou. Me deu remédio. Colocou alarmes no meu celular pra eu lembrar de tomar direitinho. E eu deixei. Dei o celular sem questionar. Depois eu brinquei: — Se eu pedisse seu celular, você me daria? Ele respondeu: — Claro que não. E eu perguntei: — Então por que eu te dei sem nem perguntar o motivo? E ele, com a voz mais natural do mundo: — Porque você tem medo de mim. Eu calei. Não porque concordei, nem porque discordei. Mas porque doeu ouvir. Porque era verdade. Eu queria responder que era respeito. Que era confiança. Que eu ainda via nele alguém digno disso. Mas lá no fundo, eu sabia: Eu tenho medo das reações dele. Não deveria. Mas tenho. E hoje, ouvir isso em voz alta, me incomodou mais do que eu estava preparada para admitir.

Eu Não Sei Se Vai Passar. E Hoje, Isso Basta

Eu não estou otimista. Eu não quero ouvir que “vai passar”, que “o tempo cura”, que “foi melhor assim”. Hoje, eu só quero que a minha dor seja ouvida. Sem ser corrigida. Sem ser minimizada. Ele foi embora. E junto com ele foi embora a ideia de que eu poderia ser amada por inteiro. Eu sempre temi o abandono. Sempre tive medo de ser a que fica, a que sobra, a que ama sozinha. E aqui estou eu. Os medos se realizaram. A mesa foi embora. A cadeira foi embora. As caixas foram embora. E eu fiquei. O vazio não é poético. Ele é sufocante. Eu não sei se vou me amar um dia. Eu não sei se vou amar outra vez. Eu não sei se vou olhar pra trás e pensar: “foi necessário”. Eu não quero fingir que estou em processo de cura. Hoje não. Hoje eu só quero existir com essa dor, do jeito que ela é. Não quero finais felizes. Não quero fórmulas. Quero o direito de não estar bem. E hoje, isso basta.

Sobreviver Porque Preciso

  Hoje ele levou mais partes dele embora. Foi-se a mesa. Foi-se a cadeira. Foram-se caixas com o que era dele — e o vazio ficou. Não só o vazio do espaço, mas o que dilacera o peito. Aquele silêncio ensurdecedor de quem está vendo a casa ser esvaziada em câmera lenta. Eu me peguei em sofrimento. Pensando: Será que eu consigo sobreviver a isso? E a resposta veio, crua, sem poesia: Sim. Eu vou conseguir. E não porque eu sou forte, ou iluminada, ou qualquer romantização da dor. Eu vou conseguir porque eu preciso. Porque o contrário disso é morrer. E eu não quero morrer. Nem de verdade. Nem aos poucos, em vida. Eu quero me reconstruir. Mesmo sem saber como. Mesmo tropeçando nos escombros do que restou. Hoje, só isso já é suficiente.

Aprendendo a Ser Um Só

O vocalista do Metallica contou que, antes de entrar no palco, teve uma crise de ansiedade. E que, naquele momento, seus companheiros disseram: “se tiveres uma crise, a gente te abraça.” Fiquei pensando nisso o dia inteiro. Quem me abraçaria se eu tivesse uma crise? Quem me abraça quando eu desabo, mesmo que ninguém veja? Hoje é domingo. Um dia que pesa mais quando você não tem um par. Quando você não é dois. Eu já fui dois. Duas vezes, oficialmente. Duas vezes achei que tinha encontrado um lar em outra pessoa. E agora, com dois casamentos desfeitos, é difícil não me sentir uma perdedora. Mas existe um aprendizado solitário, quase cruel, nesse processo: Estou reaprendendo a ser só. Não como castigo. Não como resignação. Mas como uma forma de existir sem depender do olhar de outro para me reconhecer. Ser um só assusta. Dá medo. Mas também me devolve algo que eu tinha esquecido: a mim mesma. Talvez um dia alguém me abrace nas minhas crises. Talvez não. Mas hoje, pelo menos, eu estou aqui...

Será que eu mereço ser amada?

  Às vezes eu me pergunto se alguém algum dia faria algo grande por mim. Uma música. Um gesto. Uma surpresa no meio da tarde. Ontem ouvi a história da canção “Um Dia, Um Adeus”, do Guilherme Arantes. Ele escreveu pra pedir perdão, pra dizer que amava, pra tentar voltar. E isso me destruiu por dentro. Não porque eu quero que ele volte. Mas porque, mesmo em todos os dias em que eu dei tudo de mim, nunca recebi nem metade disso. Ele nunca escreveria uma música pra mim. Ele nunca fez um gesto que dissesse:   "eu te escolho, mesmo nos dias difíceis." E aí eu fico aqui, sentada com esse silêncio me perguntando se eu já fui amada de verdade por alguém. Porque eu amei. Amei com entrega, com corpo, com alma. Amei mesmo depois de machucada. Amei mesmo quando me diziam pra ir embora. Amei mesmo quando o amor dele já estava em outra casa, em outros braços. E é isso que me corrói: eu amei. Mas... será que ele me amou? Será que alguém já me amou, de verdade? Será que eu   mereço  ...