Ocupando o Quarto de Mim
Essa semana eu tomei uma decisão pequena por fora, mas imensa por dentro: Me apropriei da minha cama. Durante muito tempo, mesmo depois dele ter ido embora, eu continuava dormindo só do meu lado. Como se houvesse uma barreira invisível me impedindo de atravessar pro lado dele — o lado vazio, o lado frio, o lado cheio de lembrança. Dormir no meu canto era como respeitar uma ausência. Um luto. Mas ontem, pela primeira vez, eu rompi isso. Comprei uma luminária nova. Coloquei flores. Livros. Cuidando daquele criado-mudo que, até então, era território dele. Pode parecer um gesto bobo. Mas pra mim, foi o maior passo que eu já dei até agora. Porque agora, aquele quarto deixou de ser “nosso”. E começou, devagarinho, a ser meu. Ainda dói. Mas um pouco menos do que ontem. E talvez, sem pressa, eu vá ocupando todos os espaços que um dia eu cedi — inclusive dentro de mim.